Mais de 400 mil mortes por Covid-19? Total já pode ter passado de 420 mil no Brasil, apontam pesquisadores

Mais de 400 mil mortes por Covid-19? Total já pode ter passado de 420 mil no Brasil, apontam pesquisadores

Cientistas fazem arremesso levando em conta ao atraso na entrada de registros de hospitalizações e mortes no sistema de monitorização oficial.

Oficialmente, o Brasil superou nesta quinta-feira (25/3) a marca trágica de mais de 300 mil mortos por Covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares indicam que o número de pessoas que morreram em consequência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 420 mil.

Essa suposição aparece em duas análises diferentes, uma disponibilizada por Leonardo Bastos, estatístico e pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz, e outra pelo engenheiro Miguel Buelta, professor efetivo da Escola USP de São Paulo.

Ambas se fundamentam em dados oficiais de Síndrome Respiratória Aguda Grave, um quadro de saúde marcado por sintomas como febre e falta de ar.

A jurisprudência brasileira determina que todo paciente que é internado no hospital com problemas respiratórios necessita obrigatoriamente ter seus dados notificados ao Ministério da Saúde por meio do Sistema de Informações de Vigilância Epidemiológica da Gripe. Esse sistema é aplicado há anos e possibilita saber quantos casos de infecções respiratórias precisaram de hospitalização e sucederam para óbito no país.

No primeiro semestre de 2019, foram registrados 3 mil óbitos por síndrome respiratória aguda grave. No mesmo período em 2020, foram registrados 86 mil. Até o momento, de todas as pessoas com crise respiratória, e o resultado laboratorial para algum vírus na pandemia, mais de 98% acabaram detectados com Covid-19.

Esses dados são vistos como bons indicadores por não sofrerem tanto com a insuficiência de testes ou resultados falsos positivos. Mas há alguns impasses, entre eles o atraso: pode levar bastante tempo até uma internação ou uma morte ser aferida no sistema.

Então, como ter noção do número atual mais próximo da realidade? Como os pesquisadores chegaram à estimativa de 400 mil a 420 mil mortes por doença respiratória gravíssima?

Projeção de hoje

Os cientistas fazem o que se chama de uma analise não do futuro, mas do agora. Isso se faz ainda mais necessário durante a pandemia por causa dessa lentidão da entrada dos registros de hospitalizações e mortes no sistema digital.

É como se os dados disponíveis hoje no sistema oficial exibissem um retrato desatualizado e cheio de pontas soltas. Para preencher e renovar essa imagem, é preciso calcular, qual é a dimensão desse atraso, de uma morte de fato à entrada do registro dela no sistema, com o propósito de prever o que está acontecendo atualmente.

Essa previsão que é feita corrige os atrasos do sistema de notificação atual, isto é, adianta-se as notificações oficiais do futuro pelo tempo médio entre o acontecimento dos primeiros sintomas no paciente e a hospitalização, quando existe o registro dos seus dados no sistema de vigilância. Esse percurso se expande por várias etapas: desde procurar um hospital, coletar o exame, o exame ser efetuado e o resultado do teste positivo para covid-19 estar liberado para ser inserido no banco de dados. O tempo amontoado entre essas etapas do processo causa atrasos de vários dias entre o número de casos confirmados na plataforma oficial de vigilância epidemiológica e os casos ainda não disponíveis no sistema, que são reparados aumentando aos casos já confirmados uma estimativa de casos que devem ser confirmados no futuro.

O problema de monitorar em tempo real o que acontece durante epidemias é mundial, e vários cientistas ao redor do mundo tentam achar respostas para esse problema.

As estimativas atuais acerca da pandemia no Brasil foram feitas a partir da modificação de um modelo estatístico apresentado em 2019 por nove pesquisadores.

Para registrar um retrato atual mais exato da pandemia, essa modelagem estatística ajusta os atrasos dos dados abrangendo os cálculos, a partir da percepção prévia da ciência sobre o que acontece durante o espalhamento de doenças como gripe.

Para chegar até o número de 420 mil mortes por crise respiratória, são considerados primeiro os dados da semana atual e da anterior, a fim de distinguir quantos casos e óbitos tiveram uma semana de atraso.

O total de 420 mil mortes é a soma dos casos observados acumulados até 16 semanas atrás com as pressuposições mais recentes corrigidas.

Em sua análise, Miguel Buelta, professor da USP, aponta um número parecido.

2 milhões de internados

Nas análises estima-se que o Brasil tenha registrado na Bahia mais de 2 milhões de internações durante a pandemia de corona vírus por causa de doenças respiratórias graves. Na pandemia de H1N1, em 2009, o total foi de 200 mil hospitalizações.

Ao entender sobre os dados, é apontado que ainda há uma tendência de piora na ocupação de hospitais no Distrito Federal e em nove Estados: Rondônia, SP, Rio, Goiás, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Maranhão, Ceará, Pernambuco e Minas Gerais.

Todos eles têm mais de 19 hospitalizações por 100 mil habitantes. Em Rondônia, essa taxa chega a 48, por exemplo.

Por outro lado, Rio Grande do Sul e Santa Catarina mostram ter conseguido controlar a tendência de alta das hospitalizações. Isso, no entanto, pode expressar tanto que a situação melhorou quanto que não tem mais como o número piorar dada a lotação dos hospitais. De toda forma, ambos os Estados ainda estão em um patamar super elevado, acima de 19 hospitalizados por 100 mil habitantes.

Agentes funerários levam caixão de vítima de Covid-19 em Manaus 07/05/2020 Foto do Bruno Kelly

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